Em um dia como esse, eu entendo um pouco mais o surrealismo. De repente acordei e meio século havia se passado. Surreal!

Lembro-me ainda quando eu calculava quantos anos eu teria no ano 2000.

Lembro-me vagamente que o máximo no tempo que jamais havia avançado nunca havia sido além de 43 ou algo. Esse é um número que me lembro. 50? Não, nunca havia alcançado essa cifra.

Agora, uma década já se passou desde os tais dois mil, daquele bug que não azucrinou ninguém e de uma apendicite aguda flegmonosa que me colocou em um hospital de Desenzano Del Garda, na Itália. Tudo, imagino, realçado por um torrão de nozes que, junto a humidade e o frio de Veneza, devem ter causado esse revertério e da Giovanna me cuidando e me levando Galletas, algo equivalente às nossas bolachinhas de maizena com açúcar cristalizado no topo, que me divertiam enquanto me convalesciam.

Lembro-me também que Veneza não é e nunca até então tinha sido uma das minhas cidades preferidas na Itália. Na verdade, a virada do milênio, minha troca de século lá passei por uma ânsia de ter um marco nessa noite, pois um outro século, muito provavelmente, não verei passar. E Veneza era o mais bombástico que poderia me marcar – Verona também teve seu papel nessa noite. Mas isso é um outro post-papo.

Uma nova década já há dois anos começou e me levou ao dia desse meu aniversário de hoje, quando inicio uma outra caminhada, aos meus próximos 50 anos, ou ao menos àqueles que a vida me presenteará ainda.

Só sei que a jornada é contínua.

De volta ao hospital, quando acordei, o enfermeiro me falava em alemão. Eu perplexo, lhe respondi em italiano que eu não falava alemão. O perplexo agora era ele, pois me relatou que durante toda a anestesia e cirurgia, tudo o que eu balbuciava era em Alemão. Eu, hem!

Minha vovó, faleceu sem falar português. Ainda me lembro dela, louca, presa àquela cama e aquele quarto daquela casa tão linda que era a da minha família materna na cidade de Novo Hamburgo, Na Av. Pedro Adams Filho, desapropriada, ludibriada e sofrida. Eu do alemão, acho que compreendia tudo quando bem pequeno, mas acho que só sabia mesmo rezar

Ich bin klein, mein Herz mach rein! Soll niemand drin wohnen als Jesus allein. Amen!

Minha avó era maravilhosa, louca era. Minha tia Helga era sua maior cuidadora, vivia na mesma casa, casa na qual eu, meu pai e minha mãe fomos também viver no início dos anos 80. Minha tia Helga alí também morreu. Tristemente, sozinha, encontrada alguns dias depois. Não sei se por isso, mas é um medo meu recorrente nessa minha vida, que eu somente seja encontrado algum tempo depois. Assombroso e traumatizante. É o medo daqueles que a sua jornada a fazem sozinhos? Mas isso ainda é um post-papo para mais adiante.

Lembro daquela casa com muito carinho, de férias lá passadas, de um pic-nic no quintal que de tão perto da casa e do trânsito que iniciava a dar as caras, parecia tão longe. Era um pic-nic de bolo e pão feito em casa e de limonada das mesmas árvores que alí me davam sombra. Acredito que até as formiguinhas lá alemão falavam.

Nessa casa, com um sótão entulhado, meu primeiro grande desejo de ter meu cantinho foi esse sótão. Inutilmente, tentei explicar à minha mãe como poderia ficar bonito com alguma pintura e algumas tralhas perdidas pela casa que alí o decorariam. Inútil. Como foram basicamente todas as nossas tentativas de chegarmos a um acordo. A diferença de idade entre nós, acho que era essa a culpada, pois falávamos em línguas diferentes, nem alemão, nem português. Nenhuma língua. Essa mãe, senhora linda, não era minha mãe biológica e isso se confirmou nessa casa, naquele início dos anos 80, há poucos dias foram 10 anos que ela foi para o céu.

E Setembro, no qual às vezes era quase Outono e que agora é quase Primavera, tem se tornado um mês estranho. Nesses dias também 1 ano se passou desde uma grande desilusão, mas isso também é um outro post-papo.

Setembro, hoje é 15. Dia em que completo 50 anos e nesse diário virtual quero iniciar a deixar minhas (nossas) confissões, anseios, discussões, dúvidas e esperança iluminada de que hoje é o primeiro dos meus próximos 50 ou outros tantos que a vida assim … Quiser me (nos) presentear!

“Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa.”

Mário Quintana (1906-1994)

Em meados de 1994, eu ainda morava em Amsterdam. Lembro-me que foi o ano em que eu experimentei múltiplos-trabalhos. Sempre achei bacana as citações fílmicas sobre correr de um trabalho ao outro para manter as contas pagas. Comigo não foi diferente.

Após uma longa experiência, a primeira, em um renomado restaurante original Italiano no Single, à época, eu já trabalhava como Barman em um Hotel-Pizzaria bem popular próximo à Praça Dam, às vezes à noite como recepcionista noturno também – e buscava mais trabalho.

Lendo o jornal, vi um anúncio para barman de um coffee shop, de até 26 anos! Eu na época já tinha 32… Mas até então, o fantasma de ser assombrado pela experiência quantificada em anos de vida não me assombrava. E, nem te ligues… Vesti-me de 26!

Afinal, tinha já quase certeza que seria mais um emprego ilegal [ nunca consegui trabalhar legalmente em Amsterdam e não por opção ] e mais certo ainda estava que nenhum documento de identidade seria solicitado.

Dito e feito. Moral? Ganhei este meu último emprego de meus anos holandeses. A questão dos 26 era basicamente com o intuito de poupar taxas. Na Europa, ao menos naquela em que eu conheci profundamente, 26 é uma idade de transição. Uma certa maioridade.

Eu nem por um momento senti que 32 e 26 não tinham nenhuma diferença entre si. Afinal, taxas do meu trabalho não eram pagas.

Hoje, já fazendo mais de 4 anos que retornei ao Brasil após tantos anos fora em diversos países, assombro a mim mesmo ao verificar as exigências das empresas com os seus candidatos, como se fosse possível aos 20 e poucos anos, ao menos para a maioria das pessoas – acho, ter toda aquela “experiência necessária” real. Tenho dúvidas.

No final dos anos 80 eu trabalhava ainda no Rio Grande do Sul para uma grande empresa, como Analista de Treinamento & Desenvolvimento e era absolutamente bom no meu trabalho. Por anos ali me desenvolvi em uma época de transição no Brasil quando Departamento Pessoal migrou ao título RH e, venhamos e convenhamos, ainda esse processo não foi extinto completamente.

Cresci tanto desde então, vi tantos “cases”, tive tantos “insights”… A confecção de apostilas de treinamento, uma das minhas atribuições, na época, quando Windows era a novidade e quando a tela do PC era verde-esmeralda. Alí eu as elaborava… Redigia no processador de texto da Itautec e desenhava gráficos incipientes em Harvard Graphics, um outro “wow” da época… Imprimia os arquivos à parte, recortava e colava as imagens nos espaços em branco deixados no texto…

Hoje, entre outros trabalhos que executo, free-lancer, eu desenho ainda brochuras e apostilas. Agora não mais daquela forma… Esses anos e essa experiência que passaram-se e se tatuaram na minha profissionalidade, fizeram com que eu possa desenvolvê-las nas plataformas (hardware e software) mais avançadas disponíveis no mercado internacional.

Pergunta – Quantos recrutadores, tais paladinos de RH, deveriam ter a sensibilidade de analisar experiência diretamente proporcional a idade e desenvolver seu papel para re-inserir tantas pessoas extremamente qualificadas que estão à margem do mercado de trabalho pelo estigma da idade?

O mercado precisa de jovens? Os jovens precisam trabalhar? Sim! O jovem precisa interagir com experiências de profissionais mais maduros? Os profissionais mais maduros precisam trabalhar? Sim!

E agora? O que fazer? Quem vai ajudar essas duas realidades darem-se as mãos e juntas realmente contribuir para o desenvolvimento de todos?

Uma das coisas que aprendi em minhas andanças pelo sudeste asiático foi o respeito aos mais velhos. Lembro-me com orgulho quando na Índia eu tocava os pés dos mais velhos em respeito às trilhas por eles percorridas.

De acordo com a crença Hindu, todos os deuses e deusas residem nos pés dos mais velhos, então, tocando-os, demonstramos o respeito por nossos idosos e esses deuses maravilhosos nos abençoam – existem também muitos estudos científicos, psicanalíticos e espirituais sobre essa prática.

E nós, em nossa cultura. Como demonstramos nosso respeito aos mais velhos?